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Por que três especialistas avaliam cada caso: o que muda na segurança do seu paciente

Quando você opera, você opera sozinho. Você tem sua formação, sua experiência, seu julgamento. E quando a decisão é sua, você assume a responsabilidade por ela integralmente. Agora pense no paciente que você encaminhou na semana passada: quantos especialistas analisaram o caso dele antes de ele entrar na sala de hemodinâmica?

Se você não sabe responder essa pergunta, ela já vale ser feita.

Como a decisão é tomada na maioria dos serviços

O modelo padrão de funcionamento da hemodinâmica no Brasil é centrado no operador. Um hemodinamicista recebe o caso, revisa os exames, entra na sala, avalia a anatomia em tempo real e decide a conduta. Esse modelo funciona. Produz procedimentos tecnicamente bem executados todos os dias em centros de qualidade variada pelo país.

O problema não é a competência técnica do operador. O problema é estrutural: decisão solitária, sob pressão de tempo, dentro de uma sala, com o paciente já cateterizado, tem características que aumentam a chance de viés de confirmação. O operador que entrou com a hipótese de que aquela lesão de 72% em circunflexa precisava de stent tende a encontrar na angiografia a confirmação dessa hipótese. Não por desonestidade. Por ser humano.

A literatura em segurança de sistemas complexos, de aviação a medicina intensiva, é consistente num ponto: decisões de alta consequência tomadas por um único indivíduo têm taxa de erro sistematicamente maior do que decisões revisadas por mais de uma perspectiva técnica antes de serem executadas.

O que muda com mais de uma perspectiva antes da sala

A avaliação multidisciplinar em cardiologia intervencionista não é novidade conceitual. O heart team para indicação de revascularização cirúrgica versus percutânea em doença coronariana complexa já está nas diretrizes da ESC e da AHA/ACC como recomendação classe I para casos de doença multivascular e lesão de tronco. O princípio é o mesmo que justifica o tumor board em oncologia: decisões irreversíveis de alta complexidade se beneficiam de mais de uma perspectiva técnica antes de serem tomadas.

O que é menos comum, e mais difícil de implementar na rotina, é estender essa lógica para além dos casos formalmente complexos. Para a lesão intermediária que parece óbvia mas tem FFR limítrofe. Para o paciente com múltiplas comorbidades onde o risco do procedimento pode superar o benefício esperado. Para o caso onde a anatomia sugere angioplastia mas a trajetória clínica sugere que o tratamento clínico ainda não foi otimizado.

Como discutimos ao falar sobre o que acontece dentro da sala de hemodinâmica, a decisão de intervir ou não é tão importante quanto a técnica de intervenção. E essa decisão, quando tomada por mais de um especialista antes do procedimento, chega à sala com mais consistência e menos viés.

Três situações onde a segunda perspectiva mudou a conduta

O primeiro caso é o da lesão que parecia indicada e não era. Paciente com lesão de 68% em descendente anterior, sintomático, encaminhado com intenção de tratar. Na discussão prévia entre os especialistas, um segundo olhar sobre o exame funcional pré-procedimento e sobre o histórico de otimização clínica levantou a questão: esse paciente realmente recebeu tratamento clínico otimizado antes do encaminhamento? A resposta foi não. O procedimento foi postergado, a terapia clínica foi intensificada, e três meses depois o paciente estava assintomático sem precisar de intervenção.

O segundo caso é o da complexidade subestimada. Anatomia que parecia simples na angiotomografia revelou, na discussão prévia, envolvimento de bifurcação com padrão desfavorável para angioplastia isolada. A presença de um segundo especialista com experiência em bifurcação complexa no planejamento mudou a técnica utilizada e reduziu o risco de reestenose precoce.

O terceiro caso é o do risco não dimensionado. Paciente com insuficiência renal moderada e indicação de cateterismo com possível intervenção no mesmo ato. A discussão prévia identificou que o volume de contraste necessário para o procedimento planejado colocava o paciente em risco de nefropatia por contraste com necessidade de diálise. O procedimento foi dividido em dois tempos, com intervalo adequado para proteção renal.

Em nenhum dos três casos o operador original estava errado em sua análise. Em todos os três, a segunda perspectiva adicionou informação que mudou o desfecho.

O que isso significa para você

Quando você encaminha um paciente para um serviço com avaliação multidisciplinar antes do procedimento, duas coisas mudam de forma concreta.

A primeira é a consistência da decisão que volta para você no laudo. Uma conduta discutida por mais de um especialista antes de ser executada chega ao laudo com justificativa mais sólida. Você não está recebendo a opinião de um único operador formada em tempo real dentro da sala. Está recebendo uma decisão que foi questionada antes de ser tomada.

A segunda é a segurança do seu paciente em casos que pareciam simples e não eram. Como discutimos ao falar sobre o que um bom laudo precisa conter, o médico encaminhador tem o direito de saber não apenas o que foi feito, mas por que foi feito. Numa decisão discutida por mais de um especialista, o "por que" tem mais camadas do que numa decisão solitária.

A pergunta que define o parceiro certo não é só "qual o resultado técnico do serviço." É: "como esse serviço toma as decisões antes de o paciente entrar na sala?"

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