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Caso Clínico #02

TAVI em Valva Aórtica Bicúspide Sievers Tipo 1 com Calcificação Extrema do Anel

Estratégia com prótese autoexpansível e manejo da subexpansão intra-procedimental

Intervenção Estrutural TAVI Valva Bicúspide Calcificação Anular Complexidade: Alta

Mulher de 79 anos com síncope recente e estenose aórtica grave (AVA 0,63 cm²; gradiente médio 70 mmHg) em valva bicúspide Sievers tipo 1 com calcificação extrema do anel (escore de cálcio 5.024 UA). Cirurgia contraindicada. Heart Team optou por TAVI transfemoral com Evolut™ PRO 23 mm, com oversizing deliberadamente reduzido — resultado final: gradiente médio 4 mmHg, sem complicações.

Dados clínicos

Idade79 anos
SexoFeminino
ApresentaçãoSíncope (fevereiro/2026). Sem dispneia, angina ou dor torácica.
Exame físicoPA 140–170/70 mmHg · FC 57 bpm · sopro sistólico +++/6+ em foco aórtico com irradiação para carótidas; fenômeno de Gallavardin em ápice.
ComorbidadesHAS · dislipidemia · doença de Alzheimer · hipotireoidismo pós-tireoidectomia total.
MedicaçõesOlmesartana/anlodipina 20/5 mg · hidroclorotiazida 25 mg · sinvastatina 20 mg · donepezila 10 mg · levotiroxina 112/125 mcg em dias alternados.
Risco cirúrgicoProibitivo — STS 7,82%; contraindicada cirurgia convencional pela calcificação extrema do anel.

Jornada diagnóstica

A investigação foi sistematizada após o episódio sincopal, com confirmação ecocardiográfica de estenose aórtica grave de alto gradiente e função sistólica preservada. A angiotomografia multidetectores com análise pelo software 3mensio Structural Heart foi determinante para o planejamento anatômico e a escolha da plataforma.

Exames complementares

ExameAchados
Laboratório (06/2025)Hb 12,6 · Plaquetas 196.000 · INR 1,00 · Cr 0,8 mg/dL · LDL 67 · HDL 89 · HbA1c 5,7% · TSH 2,2 mUI/L
ECG (03/2026)Ritmo sinusal · alteração de repolarização ventricular · FC 62 bpm
Holter 24 h (07/2025)Ritmo sinusal · FC 46/64/109 bpm · 0 pausas · EV 305 · ESV 85
MAPA 24 h (03/2026)PA média 117 × 54 mmHg
Ecocardiograma TT (11/2025)FE 64% · HVE concêntrica · disfunção diastólica grau I · AVA 0,63 cm² · gradiente máx 99 / médio 70 mmHg · refluxo discreto a moderado · PSAP 33 mmHg
CinecoronariografiaDominância coronária direita · sem lesões obstrutivas significativas

Angiotomografia aórtica — medidas estruturais (3mensio)

Análise tomográfica que ancorou a estratégia técnica e a escolha da prótese:

ParâmetroValorInterpretação
Anel — Ø mín/máx/médio21,2 / 27,0 / 24,1 mmAnel altamente excêntrico
Anel — perímetro / Ø derivado75,0 mm / 23,9 mmReferência para seleção
Anel — área / Ø derivado435,0 mm² / 23,5 mmAnel de grande calibre
LVOT — perímetro / Ø derivado73,9 mm / 23,5 mmCompatível com anel
Seios de Valsalva (LCC/RCC/NCC)31,8 / 30,1 / 31,4 mmSOV mínimo 30,1 mm — favorável à SEV
Junção sinotubular (média)27,1 mmNormal
Aorta ascendente33,0 mmNormal
Altura óstios coronários (E/D)12,5 / 18,9 mmRisco coronário baixo
Cálcio valvar total1.962 mm³Calcificação extrema (NC 812 / RC 762 / LC 389)
Escore de cálcio (Agatston)5.024 UAMuito elevado — risco aumentado de ruptura
Angulação do anel43°Moderada — viável transfemoral
Morfologia valvarBicúspide Sievers tipo 1Fusão RCC/LCC com rafe calcificada
Acesso femoral D / E5,5–7,6 / 5,3–7,0 mmBilateral adequado
Reconstrução 3mensio do anel aórtico
Reconstrução do anel aórtico ao nível valvar — anel excêntrico (Δ 5,8 mm entre diâmetros mín. e máx.).
Mensuração de perímetro e área do anel
Mensuração de perímetro (75,0 mm) e área (435 mm²) — base para a seleção da prótese.
Painel 3mensio anel, LVOT e relação com coronárias
Painel 3mensio — anel, LVOT e relação com os óstios coronários e seios de Valsalva.
Distribuição volumétrica do cálcio nos folhetos
Distribuição volumétrica do cálcio nos folhetos (NC 812 · RC 762 · LC 389 mm³) — calcificação extrema.
Anatomia bicúspide com rafe calcificada
Anatomia bicúspide Sievers tipo 1 — rafe calcificada entre os seios coronarianos direito e esquerdo.
Avaliação dos acessos femorais por angio-TC
Acessos ileofemorais — calibre e tortuosidade adequados (D 5,5–7,6 mm; E 5,3–7,0 mm), viabilizando via transfemoral.

Decisão da Heart Team

O caso foi discutido em reunião multidisciplinar de Cardiologia e Cirurgia Cardíaca. A equipe cirúrgica contraindicou formalmente a troca valvar convencional, classificando como proibitivo o risco de ruptura e deiscência do anel durante a sutura, dada a calcificação extrema documentada. A paciente e sua filha foram informadas em detalhe sobre os riscos específicos do TAVI nesse contexto — incluindo ruptura anular e óbito — e optaram pelo procedimento percutâneo.

Mensagem ao encaminhador — quando referir para TAVI?

Estenose aórtica grave sintomática (síncope, angina, dispneia ou insuficiência cardíaca) com AVA ≤ 0,75 cm² ou gradiente médio > 40 mmHg em paciente com risco cirúrgico aumentado, idoso ou com anatomia desfavorável à cirurgia (calcificação extensa do anel, aorta em porcelana, cirurgia cardíaca prévia, tórax hostil). A discussão precoce com a Heart Team antecipa o planejamento e reduz o tempo entre o sintoma e o tratamento.

Estratégia do procedimento

A escolha da plataforma protética foi guiada pelo perfil anatômico de altíssimo risco:

Plataforma autoexpansívelAs próteses autoexpansíveis (SEV) exercem forças radiais mais baixas e progressivas, distribuindo a expansão ao longo do tempo e reduzindo o risco de ruptura anular frente às balão-expansíveis (BEV) em anéis hipercalcificados.
RecapturávelO Evolut™ PRO permite recaptura e reposicionamento — margem adicional de segurança na anatomia bicúspide com anel excêntrico (21,2 × 27,0 mm).
Oversizing reduzido (23 mm)Ø derivado por perímetro de 23,9 mm com prótese 23 mm — oversizing por perímetro próximo de zero, deliberadamente conservador para reduzir as forças sobre o anel calcificado, aceitando-se leak residual passível de pós-dilatação.
Seios e óstiosSOV mínimo 30,1 mm e alturas coronárias 12,5/18,9 mm sustentam o uso supra-anular do Evolut PRO sem risco relevante de obstrução coronária.
Acesso e fluoroscopiaFemoral direito como acesso principal (mínimo 5,5 mm). Projeção de trabalho cusp-overlap RAO 17° / Caudal 36°; angulação anular 43°.

Descrição do procedimento

Realizado no Laboratório de Hemodinâmica do Hospital IGESP, sob monitorização ecocardiográfica transtorácica intra-procedimento contínua. Ecocardiograma basal: valva aórtica bastante calcificada, gradiente médio 67 mmHg, velocidade do jato 5,1 m/s, refluxo discreto e derrame pericárdico discreto.

  1. Acesso femoral direito; punção contralateral para controle angiográfico.
  2. Aortografia inicial para definição dos planos de trabalho em cusp-overlap.
  3. Cruzamento da valva nativa — dificuldade habitual de valva bicúspide calcificada.
  4. 1ª pré-dilatação — resistência intensa ao inflado, com indentação central acentuada pelo cálcio; ganho insuficiente de área valvar.
  5. 2ª pré-dilatação — necessária para vencer a resistência calcificada; ganho de área verificado e passagem segura da prótese.
  6. Implante do Evolut™ PRO 23 mm em cusp-overlap — expansão protética visivelmente insatisfatória; grade de nitinol comprimida nas regiões de maior calcificação.
  7. Ecocardiograma imediato pós-implante — regurgitação peri-protética ao menos moderada por subexpansão e cálcio focal.
  8. 1ª pós-dilatação — melhora parcial da expansão, com recolhimento parcial da prótese após desinsuflação; leak ainda insatisfatório.
  9. 2ª pós-dilatação — expansão adequada e resolução do leak grave.

Sequência fluoroscópica e em vídeo

Vídeo 1 — Aortografia inicial: definição do plano de trabalho em cusp-overlap.
Vídeo 2 — 1ª pré-dilatação: indentação central acentuada pelo cálcio, sem expansão plena do balão.
Vídeo 3 — 2ª pré-dilatação: expansão adequada do balão após a segunda tentativa.
Vídeo 4 — Liberação da prótese em cusp-overlap; note a configuração subexpandida ao final da liberação.
Prótese subexpandida após liberação
Após liberação — prótese nitidamente subexpandida.
Aspecto antes das pós-dilatações
Antes das pós-dilatações — grade comprimida nos focos de cálcio.
Aspecto após duas pós-dilatações
Após 2 pós-dilatações — abertura adequada da grade protética.
Vídeo 5 — 1ª pós-dilatação: ganho parcial de expansão.
Vídeo 6 — 2ª pós-dilatação: expansão adequada e resolução do leak grave.
Vídeo 7 — Aortografia final: regurgitação central apenas discreta, sem leak paravalvar significativo.

Resultado final

Excelente desfecho hemodinâmico e clínico, validado por avaliação ecocardiográfica intra-operatória ao término do procedimento:

9
Gradiente máx. (mmHg)
4
Gradiente médio (mmHg)
Discreta
Regurgitação (central)
Não
Marcapasso definitivo
  • Sem ruptura anular e sem complicações vasculares.
  • Sem bloqueio atrioventricular — sem necessidade de marcapasso definitivo.
  • Derrame pericárdico discreto, estável, sem aumento.
  • Alta hospitalar em 3 dias, em condições estáveis.

Discussão e pontos técnicos

A valva bicúspide Sievers tipo 1 com fusão RCC/LCC é a variante mais frequente da bicuspidia (75–80% dos casos). A rafe calcificada entre os seios direito e esquerdo gera anel elíptico e calcificação concentrada na interface dos folhetos fundidos — fatores que elevam o risco de leak paravalvar, necessidade de pós-dilatação e, mais temidamente, ruptura anular. O escore de cálcio de 5.024 UA e o volume de 1.962 mm³ posicionaram esta paciente em categoria de altíssimo risco.

A expansão súbita e incontrolável do balão nas próteses BEV pode concentrar tensões sobre focos de calcificação, com risco de laceração do anel ou da LVOT. As SEV, ao contrário, expandem-se progressivamente, distribuindo forças ao longo do tempo e permitindo recaptura. A opção pelo Evolut PRO 23 mm — oversizing por perímetro próximo de zero — visou explicitamente reduzir as forças sobre o anel, aceitando-se que a subexpansão poderia gerar leak significativo (tratável por pós-dilatação) em detrimento do risco de ruptura (tratável apenas cirurgicamente, com mortalidade proibitiva nesta paciente). A ausência de ruptura, apesar das múltiplas dilatações, validou retrospectivamente a estratégia.

Lições do caso

  • Em valva bicúspide com cálcio extremo, a escolha da plataforma autoexpansível é uma decisão estratégica de segurança — não apenas de preferência técnica.
  • O undersizing relativo intencional, aceitando leak residual tratável, é válido quando o risco de ruptura supera o do leak.
  • A pré-dilatação seriada pode ser necessária em estenoses calcificadas refratárias — tenha balões de diferentes calibres disponíveis.
  • As pós-dilatações para resolução de leak paravalvar grave devem ser encorajadas, com julgamento criterioso do risco de ruptura.
  • O planejamento tomográfico detalhado (3mensio) é indispensável: perímetro/área, escore de cálcio, excentricidade e alturas coronárias guiaram toda a estratégia.

Conclusão

O TAVI em valva aórtica bicúspide Sievers tipo 1 com calcificação extrema do anel é tecnicamente desafiador, porém factível com resultado hemodinâmico excelente. A escolha da prótese autoexpansível, guiada por planejamento tomográfico detalhado e por raciocínio de risco-benefício estruturado pela Heart Team, foi determinante para a segurança do procedimento. As dificuldades intra-procedimentais — dupla pré-dilatação, subexpansão com leak grave e dupla pós-dilatação — refletem a fisiopatologia da doença e reforçam a importância do preparo técnico do operador para cenários adversos.

Conteúdo técnico-científico destinado a profissionais de saúde. Caso anonimizado. Procedimento realizado no Hospital IGESP. Material apresentado em congresso (SOLACI/SBHCI).

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